
Isso me lembra o tema de um programa de escola para o Dia dos Pais. E ainda e um pouco estranho escrever sobre isso, alias essa e a primeira vez que estou escrevendo sobre meu pai.
Durante toda minha infancia, meu pai sempre foi meu Heroi, alto, forte, com os cabelos fartos e castanhos contrastando com seus olhos verdes, ele era para mim o homem mais inteligente, forte e bonito do mundo. Entre meus 5 e 10 anos foi a epoca que vivi mais proxima dele, ele trabalhava numa loja agropecuaria, e apesar de nao ter formacao superior era bem respeitado pela populacao local daquela cidadizinha do interior da Bahia, e por ter uma habilidade natural com animais ser bem relacionado com todos ao redor, ele era sempre chamado por algum craidor para vacinar o gado, cuidar de algum animal machucado e ate mesmo desentalar algum bezerro que nao conseguia nascer sozinho.
Eu estudava pela manha, e adorava segui-lo nessas aventuras a tarde, nem sempre minha mae ficava muito feliz com isso, mas eu ia assim mesmo. Ajudei cachorrinhos a nascer, ajudava a alimentar cabritinhos sem mae, tirava leite de vaca, nunca tive medo de andar no meio do gado, andava a cavalo, e tinha como animal de estimacao um cabritinho que perdeu a mae, o ?BITO?, mas ai ele cresceu demais e tivemos que leva-lo para uma fazenda. Ate meus 10 anos tive uma infancia simples sem luxos, mas feliz.
Meu mundo de crianca desabou no dia em que disse adeus a meu Pai, a principio era apenas uma medida provisoria, nossa situacao financeira estava bastante complicada entao minha mae, meu irmao e eu deixamos a cidade aonde moravamos na Bahia, para voltar para o Sul, e meu Pai viajaria mais tarde, depois que conseguisse vender o que ainda tinhamos por la. Eu estava triste com a separacao mas nao imaginava que nao o veria pelos proximos anos.
A ultima coisa que soubemos dele e que ele teria chegado a Sao Paulo, ficado alguns dias na casa da irma dele e seguido para Santos, de onde desapareceu completamente. Ninguem sabia dele, nenhum os meus tios e nem meus avos
O resto daquele ano fiquei morando com uma tia, e passei a ter nocao exata do que estava acontecendo, convivia diariamente com comentarios do tipo: ?Seu pai nao vale nada! Como ele pode deixar voces??, a magoa pela separacao, a sencasao de abandono, e tristeza de ver minha mae naquela situacao, criaram em mim um trauma, para bloquea-lo meu mecanismo de defesa naquela epoca foi apagar todas as boas memorias do meu Pai, e odia-lo!! Nao consigo me lembra de muita coisa dessa epoca, alem da expectativa de que no final ele voltasse para nos.
O tempo passou, e durante minha adolecencia (aborecencia) minha mae trabalhava duro para nos manter, eu cuidava do meu irmao, ajudava no que podia e tentava compensar o sacrificio dela sendo um boa filha, mas sempre quando tinhamos algum problema e discutiamos, ela me dizia que eu era igual a meu pai. Eu sempre entendi e aceitei a dor e a magoa dela, e evitava falar sobre o passado e sobre o meu pai. Alias esse assunto ficou enterrado em nossa vidas por muitos anos. Mas as comparacoes fizeram como que a todo momento eu tentasse ser o mais diferente possivel do meu Pai, e isso me afastou da minha essencia.
Nao era apenas os olhos que eu tinha herdado, tinha a heranca genetica e conforme fui crescendo nossas semelhanca foram se acentuando, e a minha luta contra essas semelhanca tambem.
Sem perceber eu passei a me afastar de todas as coisas que pudessem me lembrar dele, e acredito que a maioria das minhas decisoes quanto a profissoes e carreiras tambem foram influenciadas por essa tendencia. E ate meu primeiro casamento, meu primeiro marido era totalmente o oposto de qualquer coisas que pudesse lembrar o meu Pai, e por consequencia completamente o oposto a mim.
Eu so me dei conta de tudo isso quando me separei, numa busca pelo que estava errado na minha vida. O porque, de apesar de ter conquistado tantas coisas boas, eu ainda continuava me sentindo tao infeliz? Era como se todas as escolhas que eu tivesse feito ate entao fossem as escolhas erradas.
A essa altura eu tinha completamente me esquecido de que tive um Pai, e para mim e como se ele tivesse morrido. Eventualmente alguma lembranca vinha a minha mente, mas eu afastava me ocupando com alguma outra coisa.
Um livro me ajudou a encontrar as respostas, e sugeria solucoes, eu poderia ser ceptica e apenas ignorar tudo o que li, mas existia algo mais forte dentro de mim me pedindo para que fosse adiante. O conselho do livro era voltar a origem do trauma, e enfrentar de frente o problema.
Entao eu sabia exatamente o que tinha que fazer, precisava encontrar o meu Pai. Comecei uma busca incansavel, meu objetivo: Encontra-lo!
Uma semana depois tinha na minha mao uma lista de 6 nomes, omonimos, diferentes enderecos e telefones. Uma amiga se ofereceu para telefonar naqueles numeros e com outras informacoes que eu tinha como a data de nascimento e o numero do CPF dele, identificar qual daqueles seria meu Pai, intuitivamente eu circulei um dos nomes da lista, e pedi que ela ligasse primeiro para aquele. Nao foi preciso ligar para mais ninguem, era ele mesmo.
Naquele fim de semana eu peguei meu carro e diriji por uma hora e meia, so parei na frente da casa dele. Fiquei dentro do carro por alguns minutos, esperando criar coragem para ir la fora e bater na porta, quando vi aquele homem andando na rua em direcao ao carro, desci do carro e fui ao encontro dele, sem conseguir dizer uma palavra, me joguei nos bracos dele, e foi como se eu voltasse no tempo, para quando eu tinha apenas 10 anos. Eu nao conseguia falar, e a unica coisa que ele me disse foi: ?Eu sabia que voce viria!?.
Depois de muitas lagrimas, finalmente iniciamos um conversa, ele queira saber como era minha vida e a vida do meu irmao, contei a ele quase tudo o que tinha acontecido em nossas vidas, tambem fiquei sabendo que tinha dois meio-irmaos, um menino com o meu nome no masculino, e uma menina 20 anos mais nova do que eu.
Tinha algumas fotos do meu irmao comigo que deixei com ele. Nao estava ali para fazer nenhuma pergunta do passado e nem para cobra-lo de nada, mas nao pude resistir e perguntei o porque ele nao voltou para nos? Ele disse que foi minha mae que pediu para ele que sumisse e que nunca mais nos procurasse. E ele decidou que deixaria passar alguns meses ate que ela mudasse de ideia e nos procuraria, mas os meses se tornaram anos e foi ficando cada vez mais dificil de retornar, entao ele conheceu esse mulher, e mais duas criancas vieram ao mundo, o que tornou o retorno impossivel. ?Deixei passar tempo demais!? Nesse momento eu pude sentir a dor que ainda existia no coracao dele por ter cometido um erro. Um erro que pode ate ter causado um trama em mim e no meu irmao, e magoa na minha Mae, mas aonde o maior de todos os prejudicados foi ele mesmo, e ele sabia disso.
Eu foi ve-lo pela segunda vez, uma semana antes de embarcar para a Inglaterra, quis me despedir, conhecer meus irmaos e principalmente dizer a ele que da minha parte ele estava perdoado pelo erro do passado, que em meu coracao eu iria manter o mesmo amor que tinha por ele quando eu crianca, e que sempre o respeitaria como meu Pai.
Quando nos despedimos olhei mais uma vez para aquela figura, que ja nao e a do homem mais inteligente, o mais forte e mais bonito. Cabelo branco, cego de um dos olhos, e mancando de uma das pernas, mas ele ainda era meu Pai, meu Heroi de infancia.
Eu sei que nada pode recuperar o tempo perdido, mas mas quando o deixei naquele dia, me sentia leve, o perdao faz renascer a alma. E apartir daquele dia eu passei a construir um nova pessoa dentro de mim. Sem magoas, sem tristeza e cheia de boas recordacoes, hoje gosto de fechar meus olhos e me lembrar daquele tempo feliz, porque eh bom e nao doe mais.
Tambem sei que ser semelhante a ele nao significa seremos iguais, os erros dele nunca serao os mesmo erros meus. Apreendi a nunca ter nada pendente com ninguem, a nao ter medo de um problema ou virar as costa para ele, a nao se deixar abater por um trauma de infancia, mas buscar as origens, perdoar e perdi perdao.
Parece dificil, mas acredito que ninguem pode ser plenamente feliz sabendo que fez alguem sofrer ou sofrendo por uma magoa do passado, voce vai tentar esquecer, vai evitar as lembrancas, vai colocar todas as coisa que te fazem sofrer dentro de uma caxinha e deixar num canto escuro de sua vida, mas um dia acidentalmente essa caixa cai no seu pe e espalha tudo aquilo pelo chao, e voce tem que pagar uma a uma. Escolha esconde-las novamente, vai acontecer de novo e de novo, e cada vezes lhe causar mais dor. Escolha perdoar e ser perdoado, e so ficaram na caixinha as recordacoes felizes, de um passado sem remorsos, do qual voce numa precisara se esconder.
Perdoar meu Pai foi a melhor decisao da minha vida! E acho que a maior beneficiada por isso fui eu.